Uma sucuri-amarela com dezenas de carrapatos presos ao corpo chamou a atenção nas redes sociais. O animal foi filmado entre troncos e folhas secas no Pantanal Sul, na região de Bonito, em Mato Grosso do Sul.
O registro foi feito pelo guia de turismo e produtor de conteúdo Zé Mineiro, da Pantanal Brazil Safaris, e divulgado pelo perfil Pantanal Oficial. Nas imagens, os parasitas aparecem concentrados principalmente perto da cauda da serpente, estimada em aproximadamente 2,5 metros.
Embora a cena pareça incomum, carrapatos também parasitam répteis. O biólogo Henrique Abrahão explicou que eles procuram pontos nos quais as escamas são mais finas ou formam pequenas dobras, facilitando o acesso à pele e ao sangue do hospedeiro.
Informações verificadas e atualizadas em 30 de julho de 2026.
- O vídeo foi gravado no Pantanal Sul, na região de Bonito (MS).
- A presença de carrapatos em cobras é um fenômeno natural já documentado pela ciência.
- A concentração pode ter aumentado durante um período prolongado fora da água.
- Somente as imagens não permitem identificar a espécie dos carrapatos nem avaliar a saúde da sucuri.
Por que a sucuri-amarela estava cheia de carrapatos?
A hipótese do biólogo é que a serpente tenha permanecido em ambiente terrestre por mais tempo. A sucuri-amarela tem hábitos semiaquáticos e passa boa parte da vida em pântanos, brejos e outras áreas alagadas. Fora da água, fica mais exposta aos carrapatos presentes na vegetação.
Os parasitas se fixam em regiões nas quais conseguem perfurar a pele com mais facilidade. A proximidade da cauda, as dobras e os espaços entre escamas podem oferecer condições favoráveis. Depois de presos, eles se alimentam do sangue do animal e aumentam de volume.
A relação não é apenas uma suposição baseada no vídeo. Um estudo publicado em 2023 na Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária registrou carrapatos Amblyomma dissimile parasitando a sucuri-amarela (Eunectes notaeus) no Pantanal de Mato Grosso. Isso não significa, porém, que os parasitas vistos na gravação pertençam à mesma espécie: essa identificação exigiria coleta e análise especializada.
A sucuri é ectotérmica e depende do ambiente para regular sua temperatura. Portanto, não é correto explicar a infestação como resultado de um calor corporal constante, como ocorre em mamíferos. O fator decisivo é a adaptação de certos carrapatos aos répteis, somada ao contato com a vegetação e ao acesso à pele entre as escamas.
Vídeo mostra carrapatos concentrados na cauda
O registro aproxima a câmera da parte traseira da serpente e mostra vários carrapatos já ingurgitados, quando o corpo do parasita aumenta após a alimentação. A gravação viralizou justamente porque muitas pessoas associam carrapatos apenas a cães, cavalos e outros mamíferos.
Ver vídeo da sucuri-amarela com carrapatos no Pantanal
A infestação representa risco para a cobra?
Uma quantidade pequena de carrapatos tende a não causar um problema grave em uma serpente adulta e saudável. Uma infestação intensa, no entanto, pode provocar irritação, feridas, perda de sangue e favorecer infecções secundárias.
Não é possível concluir, apenas pelo vídeo, que a sucuri estava doente ou debilitada. Uma revisão científica publicada em 2025 por pesquisadores do Instituto Butantan e de outras instituições reuniu registros de 45 organismos encontrados em anacondas, entre parasitas e agentes potencialmente patogênicos, e destacou que ainda faltam dados para medir os efeitos de cada infestação sobre a saúde desses animais.
Animais silvestres não devem ser tocados ou manipulados por pessoas sem autorização e treinamento. Além do risco de mordida, uma intervenção improvisada pode ferir a serpente. Uma ocorrência que aparente exigir resgate deve ser comunicada aos órgãos ambientais da região.
Água e troca de pele podem ajudar a remover os parasitas
Segundo Henrique Abrahão, a permanência na água pode desprender parte dos carrapatos, embora esses parasitas sejam resistentes e alguns continuem fixados. A troca de pele, chamada ecdise, também pode eliminar indivíduos presos à camada antiga.
Os carrapatos mais firmemente aderidos podem permanecer até completar a alimentação e se soltar naturalmente. Por isso, mesmo uma cobra que nada e troca de pele regularmente pode ser encontrada com parasitas em determinado momento.
Sucuri-amarela é típica de áreas alagadas
Também chamada de sucuri-do-pantanal, a espécie ocorre principalmente nas bacias dos rios Paraguai e Paraná. Pode ser encontrada no Brasil, Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai. As fêmeas são maiores e podem chegar a cerca de quatro metros, enquanto os machos costumam medir aproximadamente 2,5 metros.
A sucuri-amarela não é peçonhenta. Ela captura aves, peixes, répteis e mamíferos por constrição, envolvendo a presa com o corpo. Na avaliação da União Internacional para a Conservação da Natureza, a espécie está classificada como pouco preocupante, mas a perda de áreas alagadas, as secas prolongadas e os incêndios ameaçam seu habitat.
Leia também: veja como é a flutuação no Rio Sucuri, em Bonito, um dos destinos naturais da região onde o vídeo foi registrado.
- Pantanal Oficial — vídeo original da sucuri-amarela.
- Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária — registro de Amblyomma dissimile em Eunectes notaeus.
- Anais da Academia Brasileira de Ciências — revisão sobre parasitas em anacondas.
- SOS Pantanal — características, distribuição e conservação da sucuri-amarela.
Nota editorial: a explicação do biólogo Henrique Abrahão foi divulgada originalmente pelo g1 MS. Os dados foram confrontados com estudos científicos e fontes especializadas.






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