Pocar, Taruíra e Moqueca: Descubra a verdadeira identidade do povo capixaba
Do significado de ‘capixaba’ às gírias locais: mergulhe na história e na cultura única do Espírito Santo neste guia completo.
O Espírito Santo é um estado que, embora geograficamente pequeno no Sudeste brasileiro, abriga uma grandiosidade cultural imensurável. A identidade do povo capixaba não é apenas um registro de nascimento, mas uma tapeçaria vibrante tecida com fios de ancestralidade indígena, herança europeia e africana, além de uma profunda conexão com a natureza. Para o turista que deseja ir além das praias, compreender quem é o capixaba transforma uma simples visita em uma imersão antropológica e sensorial.
Historicamente, a população do estado manteve-se, até décadas recentes, majoritariamente em zonas rurais. Esse fato moldou um modo de vida pacato, acolhedor e intrinsecamente ligado à terra e ao mar. A transição para a urbanização trouxe modernidade, mas não apagou as raízes. Pelo contrário, fundiu costumes do interior com a dinâmica das cidades, criando uma atmosfera única que permeia de Vitória às montanhas.
Este artigo convida o viajante a explorar o Espírito Santo através da lente de sua gente. Entender a origem do nome, o jeito de falar e as manifestações folclóricas é o primeiro passo para se apaixonar por este destino.
Origens: O Significado de Ser Capixaba
Uma das primeiras curiosidades que o visitante encontra é a própria denominação de quem nasce no estado. Diferente de outras regiões onde o gentílico deriva diretamente do nome do estado (como paulista ou mineiro), no Espírito Santo utiliza-se o termo “capixaba”. A palavra tem origem na língua tupi e significa “roça” ou “terra limpa para plantação” (kapi + xaba). Originalmente, os indígenas utilizavam o termo para designar suas plantações de milho e mandioca na ilha de Vitória.
Com o passar dos séculos, o nome, que antes referia-se à terra e aos índios que a cultivavam, estendeu-se para denominar todos os habitantes do Espírito Santo. É um título que carrega orgulho e reforça a ligação histórica com a agricultura e a resiliência.
Capixaba ou Vitoriense?
Há uma distinção importante que confunde muitos turistas. Enquanto “capixaba” refere-se a qualquer pessoa nascida no estado do Espírito Santo, o termo “vitoriense” é exclusivo para quem nasce na capital, Vitória. Portanto, todo vitoriense é capixaba, mas nem todo capixaba é vitoriense. Essa nuance reflete a importância da capital insular, uma das três capitais brasileiras localizadas em ilhas, como centro administrativo e cultural.
O Jeito de Falar: Sotaque e Gírias Locais
Existe um mito de que o capixaba não possui sotaque. No entanto, estudos linguísticos, como os do projeto Português Falado na Cidade de Vitória (PortVix), demonstram que há sim uma prosódia característica, marcada por uma cadência suave e cantada, diferente dos vizinhos cariocas, mineiros ou baianos. Mas o que realmente diverte e integra o turista é o vocabulário.
A comunicação no Espírito Santo é recheada de expressões que são verdadeiros patrimônios imateriais. Para o viajante não ficar perdido, é essencial conhecer algumas:
- Pocar: O verbo mais versátil do estado. Significa estourar, fazer sucesso, algo muito bom ou intenso. Exemplo: “A festa ontem pocou!”
- Taruíra: É como os locais chamam a lagartixa doméstica.
- Pão de Sal: O tradicional pão francês.
- Saltar: Utilizado como sinônimo de descer, especialmente de transportes públicos. “Vou saltar no próximo ponto”.
- Gastura: Uma sensação de aflição, irritação ou desconforto físico/emocional.
- Massa: Adjetivo para algo muito legal ou interessante.
- Chapoca: Usado para descrever algo muito grande ou exagerado.
Como Chegar ao Espírito Santo
Para vivenciar essa riqueza cultural, o acesso ao estado é facilitado por uma logística bem estruturada, atendendo a diferentes perfis de viajantes em 2026.
Via Aérea
A principal porta de entrada é o Aeroporto de Vitória – Eurico de Aguiar Salles (VIX). Totalmente modernizado nos últimos anos, o aeroporto recebe voos diários das principais capitais brasileiras. Sua localização é privilegiada, situada na parte continental da capital, a poucos minutos da orla de Camburi e dos principais hotéis.
Via Terrestre
O acesso rodoviário é robusto. A BR-101 corta o estado de norte a sul, permitindo uma viagem cênica pelo litoral. Para quem vem de Minas Gerais ou do Centro-Oeste, a BR-262 é a rota principal, conhecida por suas paisagens montanhosas deslumbrantes antes de chegar ao nível do mar. A Rodoviária de Vitória também recebe ônibus de diversas partes do país, com estruturas renovadas para conforto dos passageiros.
Via Ferroviária
Uma opção charmosa e econômica é o trem da Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM). É o único trem de passageiros diário no Brasil que percorre longas distâncias, ligando Belo Horizonte a Cariacica (região metropolitana de Vitória), oferecendo uma experiência de viagem lenta e contemplativa.
Infraestrutura Turística
O Espírito Santo apresenta uma infraestrutura turística que equilibra modernidade e tradição. Em 2026, a região metropolitana (Vitória, Vila Velha, Serra e Cariacica) encontra-se totalmente integrada.
- Hospedagem: A rede hoteleira é vasta, concentrando-se principalmente na Enseada do Suá, Praia do Canto e Praia de Camburi (em Vitória), e na Praia da Costa (em Vila Velha). Há opções desde hostels econômicos a hotéis de luxo de grandes redes internacionais.
- Mobilidade Urbana: O transporte público utiliza o Sistema Transcol, que integra os municípios da Grande Vitória com tarifa única. Aplicativos de transporte como Uber e 99 funcionam com alta disponibilidade e preços competitivos. Ciclovias extensas conectam a orla, incentivando o uso de bicicletas.
- Conectividade: A cobertura de internet 5G é estável em toda a capital e nas principais cidades turísticas do interior, facilitando a vida dos nômades digitais.
- Segurança: As áreas turísticas contam com policiamento reforçado, especialmente nos calçadões e centros históricos, garantindo tranquilidade para passeios diurnos e noturnos.
O Que Fazer: Vivenciando a Cultura Capixaba
A identidade capixaba se manifesta intensamente em suas atrações. O turismo no estado vai muito além da contemplação; é participativo.
Mergulho na Gastronomia: A Moqueca e a Panela de Barro
Não se pode falar de identidade capixaba sem citar a Moqueca Capixaba. Diferente da versão baiana, a capixaba não leva azeite de dendê nem leite de coco, destacando o sabor do peixe e do coentro. O prato é servido na tradicional Panela de Barro, um ícone cultural.
O turista deve visitar o Galpão das Paneleiras, no bairro de Goiabeiras. Lá, é possível ver as artesãs moldando o barro manualmente e queimando as peças a céu aberto, uma tradição indígena secular reconhecida como Patrimônio Imaterial pelo IPHAN.
Manifestações Folclóricas: O Congo
A maior expressão da alma capixaba é o Congo. Ritmo contagiante de tambores e casacas (instrumento típico com cabeça esculpida), o Congo homenageia São Benedito e Nossa Senhora da Penha. A Serra e Vila Velha são os principais palcos, especialmente durante a festa da Fincada do Mastro.
Turismo Religioso e Histórico
A fé é um pilar da identidade local. O Convento da Penha, em Vila Velha, é parada obrigatória. Construído no alto de um penhasco em 1558, oferece uma vista panorâmica das duas cidades e é o maior símbolo religioso do estado. No Centro de Vitória, a Catedral Metropolitana e o Palácio Anchieta narram a história política e religiosa desde a colonização.
Dicas Importantes para o Viajante
Para aproveitar ao máximo a estadia no Espírito Santo, algumas recomendações práticas são valiosas:
- Clima: O verão (dezembro a março) é quente e úmido, ideal para praias. O inverno é ameno, perfeito para subir as montanhas capixabas (Pedra Azul e Santa Teresa) e vivenciar a herança europeia do estado.
- Respeito à Culinária: Ao provar a moqueca, lembre-se da máxima local: “Moqueca é capixaba, o resto é peixada”. É uma brincadeira séria que reflete o orgulho gastronômico.
- Planejamento de Deslocamento: Embora as distâncias sejam curtas, o trânsito nas pontes que ligam Vitória a Vila Velha pode ser intenso nos horários de pico (início da manhã e final da tarde). Planeje seus passeios evitando esses horários.
- Eventos: Verifique o calendário cultural. A Festa da Penha (abril) e o Festival de Jazz de Santa Teresa (junho) são eventos que transformam a atmosfera das cidades.
Conclusão
A identidade do povo capixaba é um convite aberto à descoberta. É uma mistura fascinante de quem preserva a técnica ancestral de fazer panelas com as mãos, de quem sobe o morro ao som do Congo e de quem recebe o visitante com um sorriso e um “pão de sal” quentinho na padaria. O Espírito Santo, muitas vezes considerado discreto no cenário nacional, revela-se um gigante em cultura e hospitalidade para quem se permite conhecê-lo. Visitar o estado é entender que a verdadeira riqueza do Brasil está na diversidade de seus povos, e o capixaba é, sem dúvida, um capítulo vibrante dessa história.
