Feita de garrafas e luxo: Relembre a lendária ‘Casa do Navio’ em Vila Velha
Relembre a icônica Casa do Navio: arquitetura ousada com garrafas e luxo que definiu a paisagem de Vila Velha nas décadas de 60 e 70.
Durante décadas, quem transitava pela orla da Praia da Costa, em Vila Velha, não encontrava apenas a imensidão do Atlântico. Entre a restinga e o mar, uma estrutura desafiava a arquitetura convencional e capturava a imaginação de moradores e turistas: a Casa do Navio. Mais do que uma residência, a edificação foi um marco cultural e visual que definiu a paisagem do litoral capixaba entre os anos 1950 e 1980.
Construída numa época em que a Praia da Costa era um balneário bucólico, frequentado por poucas famílias e onde o asfalto ainda era novidade, a casa não era apenas um imóvel de veraneio, mas a materialização do sonho de um engenheiro italiano que ajudou a moldar a própria infraestrutura da cidade.

A Arquitetura: Uma Embarcação em Terra Firme
Erguida em 1953, a casa foi projetada para simular uma embarcação ancorada de frente para o mar. Sua fachada era o seu cartão de visitas mais exótico: em vez de tijolos aparentes ou pintura comum, as paredes externas eram incrustadas com fundos de garrafas de vidro.
Relatos históricos e crônicas locais, como as preservadas pelo acervo do site Morro do Moreno, detalham que as garrafas — em tons de verde-oliva, caramelo e marrom-chocolate — criavam um efeito vitral único. Quando o sol batia na fachada, a luz filtrava-se para o interior, colorindo os ambientes com um brilho translúcido, quase psicodélico.
A estrutura contava com todos os elementos náuticos literais:
Vigias: As janelas eram redondas, imitando as escotilhas de navios.
Cabine de Comando: No topo da construção, uma torre oval simulava a ponte de comando, oferecendo uma vista panorâmica privilegiada da orla, na época desobstruída de grandes edifícios.
Vidraças: Grandes painéis de vidro substituíam paredes de alvenaria em pontos estratégicos, integrando a vegetação de restinga e o mar ao interior da residência.
O Visionário por Trás da Obra
A mente por trás da Casa do Navio foi Nicola Campanelli, um engenheiro italiano de temperamento efusivo, contratado na época para realizar a pavimentação da estrada que ligava o centro de Vila Velha à Praia da Costa. Campanelli não apenas urbanizou a via, mas decidiu estabelecer ali sua morada, trazendo para o Espírito Santo uma estética ousada que misturava art déco tardio com elementos temáticos.
Luxo, Arte e a Lenda de Massena
O interior da residência era tão vanguardista quanto seu exterior. Os registros da época descrevem um banheiro moderno revestido inteiramente com azulejos pretos e repleto de espelhos, algo incomum para os padrões conservadores da década de 1950.
O ponto alto da área de lazer era uma banheira-piscina oval, acessada por uma imponente arcada. Mas é nas paredes que reside um dos maiores mistérios e tesouros perdidos da casa: afrescos retratando anjinhos nus adornavam os ambientes. A memória oral da cidade e cronistas locais atribuem essas pinturas a Homero Massena, um dos mais importantes pintores da história do Espírito Santo, que residiu em Vila Velha no mesmo período. Se confirmada, a demolição da casa representou também a perda de obras inestimáveis do artista.

Da Boate Pelicano ao Edifício Palladium
Com o passar dos anos, a residência deixou de ser apenas moradia e ganhou ares de vida noturna. A estrutura chegou a abrigar a Boate Pelicano, que funcionou também como cassino, recebendo a alta sociedade capixaba e turistas de todo o país, consolidando a fama do local como ponto de encontro.
O fim da Casa do Navio veio com o “boom” imobiliário que transformou a Praia da Costa a partir do final da década de 1970 e início de 1980. O terreno valorizado, localizado na atual Avenida Antônio Gil Veloso, número 1000, foi vendido para dar lugar à verticalização.
A casa foi demolida, levando consigo os fundos de garrafa e os possíveis afrescos de Massena. Em seu lugar, foi erguido o Edifício Palladium (frequentemente referido como Apart Hotel Palladium), que permanece no local até hoje. Embora o concreto moderno tenha substituído a “embarcação” de Campanelli, a Casa do Navio continua “ancorada” na memória afetiva de quem viveu a era de ouro da Praia da Costa.
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