Monte Everest: O Lado Sombrio da “Zona da Morte
Mais do que a montanha mais alta do planeta, o Monte Everest é um monumento à ambição humana e um cemitério a céu aberto. Neste dossiê, exploramos desde os mistérios da “Zona da Morte” e seus marcos trágicos até a logística real para quem sonha em visitar o local. Confira o roteiro dia a dia, a infraestrutura disponível e as informações cruciais sobre custos e segurança para a temporada 2025/2026
O Monte Everest, conhecido como Sagarmāthā no Nepal (“A Testa do Céu”) e Chomolungma no Tibete (“Mãe do Universo”), não é apenas a montanha mais alta do mundo, com seus imponentes 8.848,86 metros. É um ícone cultural, um cemitério a céu aberto e o teste definitivo de resistência humana.
Localizado na cordilheira do Himalaia, na fronteira entre o Nepal e a China (Tibete), o Everest atrai milhares de aventureiros anualmente, desde trekkers que caminham até sua base até alpinistas de elite que buscam o topo.
Abaixo, exploramos a história, os mistérios sombrios, a logística de viagem e as atualizações vitais para a temporada de 2024/2025.
1. História e Lendas do Local
Embora os locais conhecessem a montanha há séculos, foi apenas em 1852 que o “Pico XV” foi identificado como o ponto mais alto da Terra pelos britânicos, sendo renomeado em 1865 em homenagem a Sir George Everest.
A corrida para o cume foi repleta de mistério. Em 1924, George Mallory e Andrew Irvine desapareceram a poucas centenas de metros do topo. O corpo de Mallory só foi encontrado em 1999, e até hoje persiste a dúvida: eles morreram subindo ou descendo após terem sido os primeiros a conquistar a montanha?
A conquista oficial ocorreu apenas em 29 de maio de 1953, quando o neozelandês Edmund Hillary e o sherpa Tenzing Norgay alcançaram o cume e retornaram vivos, mudando para sempre a história do alpinismo.

2. O Vale das Sombras: Histórias dos Mortos
O Everest possui um lado sombrio que fascina e aterroriza. Acima dos 8.000 metros, entra-se na “Zona da Morte”. O ar contém apenas um terço do oxigênio disponível ao nível do mar. O corpo humano começa a morrer lentamente, as funções cognitivas falham e o frio pode chegar a -60°C.
Devido à dificuldade extrema e ao risco de vida para as equipes de resgate, a maioria dos que morrem na Zona da Morte permanece lá. Estima-se que existam mais de 200 corpos espalhados pela montanha, preservados perfeitamente pelo gelo. Eles se tornaram marcos macabros para outros alpinistas:
“Green Boots” (Botas Verdes): Acredita-se ser o corpo do alpinista indiano Tsewang Paljor, que morreu em 1996. Durante quase duas décadas, suas botas verdes neon serviram de ponto de referência perto de uma caverna calcária. Recentemente, o corpo foi movido para fora da rota principal em respeito à família.
“A Bela Adormecida“: Francys Arsentiev, uma americana que tentou escalar sem oxigênio suplementar em 1998. Ela se separou do marido e colapsou na descida. Alpinistas a encontraram ainda viva, implorando para não ser deixada para trás, mas o resgate era impossível. Ela morreu onde caiu, visível por anos até ser coberta com uma bandeira e empurrada para fora da vista em 2007.
O “Vale do Arco-Íris”: Uma área próxima ao cume recebeu este apelido não por sua beleza, mas pelas cores vivas das jaquetas de penas (vermelhas, azuis, laranjas) dos corpos de alpinistas caídos que repousam ali.
Essas histórias servem como um lembrete brutal de que a montanha sempre tem a última palavra.
3. Como Chegar
Para a grande maioria dos visitantes (que acessam pelo lado Sul, no Nepal), a jornada começa na caótica e vibrante capital, Katmandu.
Voo Internacional: Chegada ao Aeroporto Internacional Tribhuvan (KTM).
O Voo para Lukla: De Katmandu (ou Ramechhap, dependendo da temporada), pega-se um pequeno avião para o Aeroporto Tenzing-Hillary em Lukla (2.840m). Este é considerado um dos aeroportos mais perigosos do mundo devido à sua pista curta e inclinada, encravada entre montanhas.
O Trekking: De Lukla, não há estradas. A única forma de chegar ao Acampamento Base é a pé (ou de helicóptero). A caminhada dura entre 8 a 14 dias (ida e volta), permitindo a aclimatação gradual.
4. Infraestrutura: Uma Cidade no Gelo
A infraestrutura na região do Khumbu (onde fica o Everest) evoluiu drasticamente.
Na Trilha (Teahouses): O caminho até a base é pontilhado por vilarejos Sherpa como Namche Bazaar e Tengboche. As acomodações são “Teahouses” (pousadas de pedra/madeira). Hoje, muitas oferecem Wi-Fi (Everest Link), carregamento de bateria, lençóis elétricos e até padarias com torta de maçã.
Acampamento Base (EBC – 5.364m): Durante a temporada de escalada (abril/maio), o EBC se transforma em uma cidade temporária sobre a geleira Khumbu. Possui hospital de campanha, heliporto movimentado, tendas refeitório com cozinheiros, banheiros químicos e internet.
Acampamentos Superiores: Acima do Base, a infraestrutura desaparece. Existem apenas barracas leves montadas pelos Sherpas nos Acampamentos 1, 2, 3 e 4. Os Sherpas são a espinha dorsal da montanha: fixam as cordas, carregam o oxigênio e guiam os clientes.
5. O Que Fazer (Para não-alpinistas)
Você não precisa escalar a montanha para viver a experiência. Na verdade, o Trekking ao Acampamento Base do Everest (EBC) é uma das trilhas mais famosas do mundo.
Namche Bazaar: A “capital” Sherpa. Explore o mercado, cafés e museus sobre a cultura local.
Tengboche Monastery: O maior monastério da região. Assistir às cerimônias budistas com a vista do Ama Dablam e do Everest ao fundo é espiritual.
Kala Patthar (5.545m): O ponto alto do trekking. Como não se vê o cume do Everest do próprio Acampamento Base (ele é bloqueado por outras montanhas), os trekkers sobem o Kala Patthar para ter a vista mais icônica do cume ao nascer ou pôr do sol.
Lagos Gokyo: Uma rota alternativa menos cheia e possivelmente mais bonita, com lagos azul-turquesa glaciais.
6. Informações Atualizadas e Regras (2024-2025)
O turismo no Everest está passando por mudanças rigorosas devido à superlotação e às mudanças climáticas.
Chips de Rastreamento (Obrigatório): A partir da temporada de 2024, o Nepal tornou obrigatório que todos os alpinistas usem um chip de rastreamento costurado em suas roupas. Isso visa facilitar as buscas e resgates, reduzindo o número de mortes e corpos desaparecidos.
Gestão de Resíduos (Sacos de Fezes): Em uma nova regra polêmica mas necessária, os alpinistas agora devem comprar sacos especiais para recolher suas próprias fezes nos acampamentos superiores e trazê-las de volta ao Acampamento Base. O acúmulo de excrementos humanos no gelo (que não se decompõem) tornou-se um risco sanitário grave, contaminando a bacia hidrográfica.
Aumento nos Preços: O custo da permissão de escalada (royalty pago ao governo) subiu. Para estrangeiros, a taxa que era de $11.000 USD está sendo reajustada para $15.000 USD em 2025. O custo total de uma expedição varia agora entre $45.000 e $100.000+ USD (dependendo se é serviço “budget” ou VIP).
Impacto Climático: O aquecimento global está derretendo o gelo rapidamente. A famosa “Cascata de Gelo do Khumbu” está ficando mais instável e perigosa. Corpos antigos estão aparecendo com mais frequência conforme o manto de neve recua.
7. Dicas Práticas e Preparação
Seguro Viagem é Vital: Seu seguro deve cobrir explicitamente resgate de helicóptero acima de 5.000 metros. Um resgate pode custar $5.000 a $10.000 USD à vista se você não tiver seguro.
Treinamento Físico: Para o trekking até a base, você não precisa ser um atleta olímpico, mas deve ter um excelente preparo cardiovascular e força nas pernas. Caminhadas longas com mochila pesada são o melhor treino.
Mal da Altitude (AMS): A maior ameaça. Dor de cabeça, náusea e tontura são comuns. A regra de ouro é “escale alto, durma baixo”. Nunca ignore os sintomas; o edema pulmonar ou cerebral pode matar em horas.
Respeito Cultural: Ao passar por Stupas ou pedras Mani (pedras de oração), caminhe sempre pela esquerda (sentido horário). Peça permissão antes de fotografar moradores locais.
Equipamento: Não economize nas botas e no saco de dormir. O frio nas pousadas à noite é intenso, muitas vezes abaixo de zero dentro do quarto.
Roteiro Clássico: Rumo ao Teto do Mundo
Dia 1: O Voo da Emoção e Início da Trilha
Rota: Katmandu ou Ramechhap – Lukla – Phakding
Altitude: 2.840m (Lukla) descendo para 2.610m (Phakding)
Destaque: O voo de 30 minutos é uma aventura à parte, pousando na minúscula pista inclinada de Lukla. Após o pouso, você começa a caminhar. O primeiro dia é tranquilo e, curiosamente, é uma descida até a vila de Phakding.
Tempo de caminhada: 3 a 4 horas.
Dia 2: A Subida para a Capital Sherpa
Rota: Phakding – Namche Bazaar
Altitude: Subida para 3.440m
O Desafio: Este é um dos dias mais difíceis fisicamente. Você cruzará a famosa Ponte Hillary (uma ponte suspensa vertiginosa coberta de bandeiras de oração). A subida final para Namche é íngreme e longa.
Primeira Vista: Se o tempo estiver limpo, você terá seu primeiro vislumbre do Everest ao longe.
Tempo de caminhada: 6 a 7 horas.
Dia 3: Aclimatação em Namche Bazaar (Dia Crítico)
Atividade: “Escale alto, durma baixo”.
O que fazer: Não fique parado. Caminhe até o Everest View Hotel (3.880m) para tomar um chá com vista para o Everest, Lhotse e Ama Dablam. Visite também o Museu Sherpa.
Objetivo: Adaptar o corpo à escassez de oxigênio.
Pernoite: De volta a Namche.
Dia 4: O Caminho Espiritual
Rota: Namche Bazaar – Tengboche (ou Deboche)
Altitude: 3.860m
Destaque: A trilha oferece vistas panorâmicas espetaculares. O destino é o Monastério de Tengboche, o centro espiritual da região. Tente chegar a tempo para a cerimônia dos monges às 15h.
Tempo de caminhada: 5 a 6 horas.
Dia 5: Rumo ao Vale de Imja
Rota: Tengboche – Dingboche
Altitude: 4.410m
Mudança de Cenário: Você sai das florestas de rododendros e pinheiros e entra em uma paisagem alpina árida, dominada por pedras e ventos frios. O ar começa a ficar rarefeito de verdade aqui.
Tempo de caminhada: 5 a 6 horas.
Dia 6: Aclimatação em Dingboche
Atividade: Segunda parada obrigatória para aclimatação.
O que fazer: Subida ao cume do Nangkartshang Peak (5.083m) para vistas incríveis do Makalu (a 5ª montanha mais alta do mundo). Retorno a Dingboche para dormir.
Dia 7: O Memorial dos Caídos
Rota: Dingboche – Lobuche
Altitude: 4.910m
Momento Solene: Você passará pelo Thukla Pass, onde há dezenas de memoriais de pedra (chortens) dedicados aos alpinistas que morreram no Everest, incluindo Scott Fischer e Rob Hall (do desastre de 1996). É um local emocionante e silencioso.
Tempo de caminhada: 5 a 6 horas.
Dia 8: O Grande Dia (Acampamento Base)
Rota: Lobuche – Gorak Shep – Acampamento Base – Gorak Shep
Altitude: 5.140m (Gorak Shep) e 5.364m (EBC)
A Jornada: Você caminha até Gorak Shep (o último povoado), almoça, deixa a mochila pesada e segue para o Acampamento Base.
No EBC: Você pisa na geleira Khumbu. Se for na primavera, verá a “cidade de barracas” amarela das expedições. Nota: Do EBC não se vê o cume do Everest.
Retorno: Você volta para dormir em Gorak Shep, pois não é permitido turistas dormirem no EBC sem permissão de expedição.
Tempo de caminhada: 7 a 8 horas (dia longo).
Dia 9: A Melhor Vista (Kala Patthar) e Descida
Rota: Gorak Shep – Kala Patthar – Pheriche
Altitude: Ponto máximo a 5.545m (Kala Patthar)
O Clímax: Acordar às 4h da manhã para subir o Kala Patthar. Lá de cima, ao nascer do sol, você tem a melhor vista possível do cume do Everest e do Pumori. É o ponto mais alto de toda a viagem.
A Descida: Após descer, você pega as mochilas e começa o longo caminho de volta, descendo até Pheriche (4.240m), onde o ar já parece “rico” novamente.
Tempo de caminhada: 7 a 8 horas.
Dias 10, 11 e 12: O Retorno
Dia 10: Pheriche para Namche Bazaar. (As pernas doem, mas a respiração melhora).
Dia 11: Namche Bazaar para Lukla. (Dia de celebração com os guias e carregadores).
Dia 12: Voo Lukla para Katmandu. (Fim da jornada).
Resumo de Custos (Estimativa 2025)
Pacote com Agência (Tudo incluso): Entre US$ 1.400 a US$ 2.500 por pessoa.
Inclui: Guias, carregadores (porters), licenças, voos internos e hospedagem.
Não inclui: Voo internacional até o Nepal, visto, seguro e refeições (às vezes).
Independente: Em 2023/24, o Nepal baniu o trekking solo. Agora é obrigatório contratar ao menos um guia licenciado ou porter-guia.
Gastos Extras na Trilha: Leve cerca de US$ 30 a US$ 40 por dia em rúpias nepalesas para comida, Wi-Fi, banho quente e carregamento de eletrônicos.
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