O iceberg A23a foi, durante anos, considerado o maior iceberg do mundo e um dos gigantes de gelo mais impressionantes já acompanhados por satélites. Nascido na Antártida em 1986, ele passou décadas praticamente imóvel, preso ao fundo do mar, antes de voltar a se mover e iniciar uma longa viagem pelo Oceano Antártico.
Em 2026, porém, a história mudou. O A23a já não é mais aquele bloco compacto e gigantesco que chamava atenção apenas pelo tamanho. Depois de girar em uma espécie de armadilha oceânica, encalhar perto da Geórgia do Sul e perder enormes pedaços, o iceberg entrou em sua fase final de fragmentação.
Iceberg A23a: o gigante que nasceu na Antártida
O iceberg A23a se desprendeu da plataforma de gelo Filchner-Ronne, na Antártida, em 1986. Desde então, passou a ser monitorado por cientistas e satélites por causa de seu tamanho excepcional e de sua trajetória incomum.
Durante décadas, ele permaneceu preso ao fundo do Mar de Weddell. Isso aconteceu porque sua parte submersa, muito profunda, ficou encalhada no leito oceânico. Enquanto outros icebergs seguem rapidamente pelas correntes, o A23a passou boa parte de sua existência praticamente parado.
Esse comportamento fez dele um caso especial. O iceberg era antigo, imenso e relativamente estável para um bloco de gelo flutuante. Sua longa permanência perto da Antártida ajudou a preservar sua estrutura por muito mais tempo do que normalmente acontece com icebergs dessa escala.
Por que o A23a chamou tanta atenção?
O A23a chamou atenção por três motivos principais: tamanho, longevidade e trajetória. Ele já teve área comparável à de pequenos países ou estados, foi descrito como maior que muitas metrópoles e chegou a pesar aproximadamente um trilhão de toneladas em estimativas divulgadas por órgãos científicos e veículos especializados.
Além disso, sua idade impressiona. Poucos icebergs são acompanhados por quase 40 anos. O A23a atravessou décadas de observação por satélites, desde o período em que ficou preso no Mar de Weddell até sua deriva em direção ao Atlântico Sul.
Em vez de ser apenas um bloco de gelo perdido no oceano, ele virou uma espécie de laboratório natural para entender correntes marítimas, derretimento, fragmentação e o ciclo de vida dos grandes icebergs antárticos.
A coluna de Taylor: quando o iceberg ficou girando no oceano
Um dos episódios mais curiosos da história do A23a aconteceu em 2024, quando ele ficou preso em um fenômeno oceanográfico conhecido como coluna de Taylor.
Esse fenômeno ocorre quando correntes oceânicas encontram um obstáculo no fundo do mar, como uma montanha submarina. A água passa a girar em torno desse obstáculo, formando uma espécie de coluna rotativa que pode prender objetos flutuantes.
No caso do A23a, o iceberg ficou girando sobre a região do Pirie Bank, uma elevação submarina no Oceano Antártico. A NASA registrou que, em outubro de 2024, o iceberg continuava girando cerca de 15 graus por dia praticamente no mesmo local.
O que é o Pirie Bank?
O Pirie Bank é uma montanha submarina, também chamada de seamount. Embora esteja escondida sob o oceano, sua presença altera o fluxo das correntes e pode criar movimentos circulares na água.
Foi essa interação entre relevo submarino e corrente oceânica que manteve o A23a preso em rotação por meses. Para os cientistas, a cena era fascinante: um dos maiores icebergs já observados girando lentamente em uma armadilha natural invisível da água.
Esse episódio ajudou a mostrar como o fundo do oceano influencia a trajetória de icebergs gigantes. Mesmo massas de gelo enormes não se movem apenas pelo vento ou pela corrente superficial; elas também respondem ao relevo submarino e às dinâmicas profundas do oceano.
O A23a encalhou perto da Geórgia do Sul
Depois de escapar da rotação sobre o Pirie Bank, o A23a seguiu viagem pelo Oceano Antártico e se aproximou da ilha subantártica da Geórgia do Sul. Em março de 2025, o British Antarctic Survey informou que o iceberg havia encalhado perto da ilha, depois de se deslocar por centenas de quilômetros desde o fim de 2024.
A aproximação da Geórgia do Sul gerou preocupação porque a região abriga colônias de pinguins, focas e outros animais marinhos. Quando um iceberg gigante encalha perto de áreas de alimentação, ele pode bloquear rotas naturais e forçar animais a percorrer distâncias maiores para buscar alimento.
Mesmo assim, icebergs são comuns no Oceano Antártico. O governo da Geórgia do Sul e Ilhas Sandwich do Sul informou em janeiro de 2025 que acompanhava o movimento do A23a e esperava que ele encalhasse antes de atingir diretamente a massa terrestre da ilha.
O A23a ainda é o maior iceberg do mundo?
Não. Em 2026, o A23a não deve mais ser chamado de maior iceberg do mundo. Ele foi o maior por um período importante, mas perdeu grandes pedaços durante sua deriva pelo Atlântico Sul e deixou esse posto.
Dados divulgados pela ESA indicaram que, em dezembro de 2025, o A23a já havia perdido cerca de três quartos de sua área, restando aproximadamente 1.000 km². A imagem analisada mostrava o iceberg cerca de 150 km a noroeste da Geórgia do Sul, cercado por vários fragmentos menores.
Isso não significa que ele deixou de ser impressionante. Mesmo reduzido, o A23a continuava sendo um dos maiores blocos de gelo em águas abertas. Porém, seu ciclo como “rei dos icebergs” chegou ao fim.
Por que o A23a começou a se desfazer?
O processo de fragmentação do A23a tem relação com vários fatores: águas mais quentes, ondas, correntes oceânicas, fraturas internas, derretimento superficial e perda de estabilidade estrutural.
Quando um iceberg gigante sai das águas frias próximas à Antártida e entra em regiões mais temperadas do Atlântico Sul, ele passa a sofrer mais. A base derrete, as bordas se desgastam, rachaduras avançam e grandes blocos começam a se desprender.
Em janeiro de 2026, a NASA informou que o A23a estava encharcado por água de degelo azulada e à beira da desintegração. Imagens de satélite mostravam poças de água na superfície, fendas e sinais claros de enfraquecimento.
Por que a água azul no iceberg é um mau sinal?
A água azul observada no A23a é resultado do degelo. Quando a superfície do iceberg derrete, a água se acumula em poças e rachaduras. Essa água pode parecer bonita nas imagens de satélite, mas é um sinal de fragilidade.
O problema é que a água líquida entra nas fissuras, aumenta a pressão interna e ajuda a abrir ainda mais as rachaduras. Com o tempo, esse processo acelera a quebra do gelo.
Por isso, quando cientistas observam muitas poças de degelo em um iceberg gigante, a interpretação costuma ser clara: a estrutura está perdendo resistência e pode se fragmentar rapidamente.
O A23a aumenta o nível do mar?
O derretimento do A23a não eleva diretamente o nível do mar de forma significativa, porque o iceberg já estava flutuando no oceano. É o mesmo princípio de um cubo de gelo em um copo: quando o gelo flutuante derrete, ele não muda muito o volume final da água.
Isso é diferente do derretimento de gelo continental, como geleiras e mantos de gelo apoiados sobre terra. Quando esse gelo escorre para o oceano, aí sim contribui diretamente para a elevação do nível do mar.
Mesmo assim, o A23a continua importante para a ciência, porque sua trajetória ajuda a entender como grandes massas de gelo se desprendem, se movem, derretem e afetam ecossistemas marinhos.
O impacto ambiental do iceberg A23a
Icebergs gigantes podem afetar o ambiente de várias formas. Ao derreter, eles liberam água doce e nutrientes no oceano. Isso pode alterar temporariamente a salinidade, influenciar a circulação local e estimular a vida microscópica em algumas áreas.
Por outro lado, quando encalham perto de ilhas com colônias de animais, podem bloquear rotas de alimentação. Pinguins e focas podem precisar nadar distâncias maiores, o que aumenta gasto de energia e pode afetar a sobrevivência de filhotes em períodos sensíveis.
O A23a também deixou muitos fragmentos menores ao se partir. Esses pedaços ainda podem representar risco para navegação, especialmente em rotas próximas à Geórgia do Sul e ao Atlântico Sul.
Por que os cientistas acompanham icebergs gigantes?
Acompanhar icebergs como o A23a ajuda a entender a dinâmica da Antártida e dos oceanos. Satélites permitem medir tamanho, velocidade, direção, rachaduras, derretimento e fragmentação ao longo do tempo.
Esses dados são úteis para navegação, previsão de riscos, estudos de clima e compreensão das plataformas de gelo. Icebergs gigantes também funcionam como indicadores do comportamento das bordas geladas da Antártida.
Em um planeta em aquecimento, cientistas querem entender se grandes desprendimentos se tornarão mais frequentes, quais áreas são mais vulneráveis e como o oceano responde a esses eventos.
O A23a e as mudanças climáticas
É importante ter cuidado: um único iceberg não prova, sozinho, uma mudança climática. Grandes icebergs sempre se desprenderam da Antártida como parte de processos naturais das plataformas de gelo.
Porém, o contexto importa. O aquecimento dos oceanos e da atmosfera pode enfraquecer plataformas de gelo em algumas regiões, alterar padrões de derretimento e aumentar a instabilidade de partes da Antártida.
O A23a, por ter sido monitorado por décadas, oferece uma oportunidade rara para observar como um iceberg gigante nasce, fica preso, volta a se mover, interage com correntes, encalha, se fragmenta e desaparece.
Linha do tempo do iceberg A23a
- 1986: o A23a se desprende da plataforma Filchner-Ronne, na Antártida.
- Décadas seguintes: permanece encalhado no fundo do Mar de Weddell.
- 2020: começa a se mover novamente depois de décadas preso.
- 2024: fica girando sobre o Pirie Bank em uma coluna de Taylor.
- Fim de 2024: deixa a região de rotação e segue em direção à Geórgia do Sul.
- 2025: encalha perto da Geórgia do Sul e depois entra em forte processo de fragmentação.
- 2026: imagens da NASA mostram água azul de degelo e sinais de desintegração avançada.
O fim do A23a
O fim do A23a não acontece de uma vez. Icebergs gigantes geralmente morrem aos poucos: perdem blocos, racham, viram fragmentos menores, derretem e se misturam ao oceano.
Em abril de 2026, a NASA descreveu a jornada do A23a como encerrada em fragmentação no Atlântico Sul, depois de uma vida de quase 40 anos documentada por satélites.
Esse fim não diminui sua importância. Pelo contrário: poucos icebergs tiveram uma história tão longa, tão bem documentada e tão cheia de episódios curiosos quanto o A23a.
Vale a pena acompanhar a história do A23a?
Vale, porque o A23a é mais do que uma curiosidade gelada. Ele ajuda a explicar a força das correntes oceânicas, a influência das montanhas submarinas, o comportamento dos icebergs gigantes e o papel da Antártida no equilíbrio climático do planeta.
A imagem de um bloco de gelo colossal girando lentamente no oceano, preso por um vórtice invisível, mostra que a natureza ainda guarda fenômenos capazes de surpreender até cientistas experientes.
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Para acompanhar imagens e informações oficiais sobre o A23a, veja também a publicação da NASA Earth Observatory sobre o iceberg A23a .
Resumo rápido
- Nome: Iceberg A23a.
- Origem: plataforma de gelo Filchner-Ronne, na Antártida.
- Ano de desprendimento: 1986.
- Fenômeno marcante: rotação em uma coluna de Taylor sobre o Pirie Bank.
- Região recente: Atlântico Sul, perto da Geórgia do Sul.
- Status em 2026: fortemente fragmentado e em fase final de desintegração.
- Importância: estudo de correntes, derretimento, ecossistemas e ciclo de vida dos icebergs antárticos.
Conclusão
O iceberg A23a foi um dos maiores e mais fascinantes gigantes de gelo já acompanhados pela ciência moderna. Ele nasceu na Antártida, ficou preso por décadas, voltou a se mover, girou em uma armadilha oceânica, aproximou-se da Geórgia do Sul e terminou sua jornada se desfazendo em águas mais quentes.
Sua história mostra que um iceberg não é apenas gelo flutuando. Ele carrega pistas sobre o oceano, o clima, o relevo submarino, a vida marinha e a própria dinâmica da Antártida. Mesmo em fragmentos, o A23a continua sendo um dos exemplos mais impressionantes de como a Terra está sempre em movimento.









