Atualizado em 17 de julho de 2026. Naufrágios históricos são patrimônio subaquático protegido. Este artigo não divulga coordenadas nem ensina acesso independente aos destroços. Condições do mar e operações de mergulho devem ser confirmadas com profissionais habilitados.
Os naufrágios no Espírito Santo formam um arquivo histórico escondido sob o mar. Vapores movidos a carvão, cargueiros de cabotagem e um grande navio transformado em recife artificial permanecem diante de Guarapari, Anchieta e Iriri.
O acidente mais tenso dessa história aconteceu na noite de 15 de fevereiro de 1903. O vapor britânico Bellucia navegava com milhares de sacas de café quando um problema na caldeira reduziu sua velocidade. Dez minutos depois, rochas surgiram muito perto da proa. A ordem para parar as máquinas chegou tarde demais.
O que ainda existe no fundo: o Bellucia permanece partido em duas grandes seções; o Faria Lemos conserva caldeiras e máquinas; o Guanabara mantém parte da proa e do sistema a vapor; o Paquetá ainda possui âncora, guincho e uma grande seção do casco; e o Victory 8B continua como recife artificial, embora tenha sofrido alterações estruturais.
Índice do artigo
- Quantos naufrágios existem no Espírito Santo?
- Os principais destroços conhecidos
- Bellucia: a noite em que o navio se partiu
- O que restou do Bellucia
- Faria Lemos
- Guanabara
- Paquetá
- Victory 8B
- Por que tantos navios afundaram?
- É possível conhecer os naufrágios?
- Por que nada deve ser retirado?
- Perguntas frequentes
Quantos naufrágios existem no Espírito Santo?
O levantamento especializado do Sistema de Informação de Naufrágios, atualizado com registros de 2025, reúne 107 ocorrências no Espírito Santo e outras sete associadas à Ilha da Trindade.
Esse número precisa ser interpretado com cuidado. Ele inclui acidentes históricos conhecidos por documentos, embarcações com localização imprecisa, destroços ainda não identificados e naufrágios que não possuem interesse turístico. Não significa que existam 107 navios inteiros, mapeados e disponíveis para mergulho.
Entre os naufrágios no Espírito Santo com história e estruturas melhor documentadas estão Bellucia, Faria Lemos, Guanabara, Paquetá e Victory 8B. Os quatro primeiros afundaram em acidentes. O Victory foi levado ao fundo de forma planejada.
Naufrágios no Espírito Santo: o que ainda existe
| Navio | Ano | Região | Como afundou | O que permanece |
|---|---|---|---|---|
| Bellucia | 1903 | Guarapari | Colisão com formação rochosa | Duas seções, hélice, leme, máquinas, caldeiras, guinchos e partes do casco |
| Faria Lemos | 1890 | Guaibura, Guarapari | Choque contra recifes durante cerração | Duas caldeiras, máquinas, condensador, chapas e peças espalhadas |
| Guanabara | 1911 | Anchieta | Colisão em baixa visibilidade | Proa, escovém, guincho, caldeiras, condensador, máquina e eixo |
| Paquetá | 1972 | Iriri | Colisão com recife e afundamento na enseada | Proa, âncora, guincho, cabine rompida e seção de popa |
| Victory 8B | 2003 | Guarapari | Afundamento planejado para recife artificial | Convés, porões, superestrutura, casco, leme e hélice, com alterações causadas pelo tempo |
Bellucia: dez minutos entre o alerta e o choque
O Bellucia foi construído em Glasgow, na Escócia, em 1888. O vapor possuía 102 metros de comprimento e operava na rota comercial entre a Europa, a América do Sul e os Estados Unidos.
Em fevereiro de 1903, o navio deixou Santos transportando milhares de sacas de café. Depois de uma escala em Vitória e de reparos realizados no Rio de Janeiro, voltou ao mar.
Na noite de 15 de fevereiro, a embarcação passou pela região de Guarapari. As condições não eram descritas como uma tempestade extrema, mas havia ondulação e vento. Por volta das 19h30, o responsável pelas máquinas comunicou um problema na caldeira de bombordo.
O comandante S. Horne mandou reduzir a velocidade e medir a profundidade. Era uma decisão prudente, mas o perigo já estava próximo.
Às 19h40, a tripulação avistou as rochas da Rasa da Escalvada quase diante do navio. A ordem foi parar as máquinas. O vapor, porém, não conseguiu interromper o avanço a tempo.
O momento decisivo: o casco atingiu a formação rochosa pelo lado de bombordo. A água começou a entrar imediatamente, e o navio ficou preso nas pedras.
A tripulação tentou reflutuar o Bellucia, mas o casco continuou sofrendo com o peso, a água e o movimento do mar. Depois de algumas horas, a estrutura começou a romper no setor das caldeiras.
O navio foi abandonado. A proa afundou junto às rochas. A popa se soltou, afastou-se aproximadamente 150 metros e também desapareceu sob a água. Antes que um auxílio efetivo chegasse, o vapor já estava dividido em duas partes.
Essa sequência transforma o Bellucia no episódio mais tenso entre os naufrágios capixabas bem documentados: primeiro surgiu uma falha mecânica; depois, a ameaça foi avistada a poucos minutos da colisão; por fim, o navio permaneceu preso enquanto o casco se partia.
O que ainda existe no fundo do mar?
O Bellucia não desapareceu por completo. Seus destroços permanecem divididos em duas áreas, entre aproximadamente 15 e 27 metros de profundidade.
A seção de popa é a mais reconhecível. Nela ainda podem ser identificados:
- grande hélice de quatro pás;
- leme e arco da hélice;
- parte do casario e de antigas janelas;
- cabeços de amarração;
- guincho de popa;
- mastro tombado;
- cilindros da máquina a vapor;
- caldeira principal e caldeira auxiliar.
A área da proa conserva âncora, guinchos, partes do mastro, caldeiras e grande quantidade de ferragens espalhadas. A distância entre as duas seções e as correntes da região tornam o local uma operação para mergulhadores certificados, com planejamento profissional.
Mais de um século de permanência no mar também modificou o navio. Corais, algas e animais ocuparam as estruturas, transformando o acidente histórico em habitat marinho.
Faria Lemos: passageiros cercados pela cerração
O Faria Lemos era um vapor brasileiro praticamente novo. Em agosto de 1890, seguia do Rio de Janeiro para Caravelas, com escala em Vitória, levando cerca de 60 passageiros, tripulantes e cargas variadas.
Na noite de 30 para 31 de agosto, uma forte cerração reduziu a visibilidade diante da região de Guaibura, em Guarapari. O navio atingiu a linha de recifes conhecida como Três Ilhas ou Três Pedras.
Uma pessoa da tripulação morreu. Os passageiros e os demais tripulantes conseguiram alcançar Guarapari ainda naquela noite. A carga foi perdida quase por completo.
Hoje, o Faria Lemos está desmantelado em uma área rasa, entre recifes e fundo de areia. Permanecem duas caldeiras, sendo uma relativamente íntegra e outra rompida, além de máquinas, condensador, chapas metálicas e peças espalhadas.
Guanabara: o navio que deu nome à praia
No início de abril de 1911, o vapor Guanabara transportava açúcar quando enfrentou baixa visibilidade perto de Benevente, atual Anchieta. O navio bateu em recifes próximos à antiga Praia de Ubu e encalhou.
A tripulação conseguiu chegar à praia. A entrada de água atingiu a parte dianteira, e as tentativas de salvar o restante da carga não impediram a perda da embarcação.
O naufrágio acabou associado ao nome atual da Praia de Guanabara. Seus restos ficam próximos da costa, mas isso não transforma o local em passeio simples ou autorizado para acesso independente.
O navio está desmantelado. Ainda podem ser reconhecidos parte da proa, o escovém por onde passava a corrente da âncora, trechos do cavername, um guincho, duas pequenas caldeiras, condensador, máquina a vapor e eixo propulsor.
Paquetá: treze tripulantes retirados de helicóptero
Durante anos, a data e a história do Paquetá permaneceram imprecisas. Uma pesquisa documental divulgada em 2025 encontrou registros que situam o acidente em 30 de setembro de 1972.
O pequeno cargueiro brasileiro, com aproximadamente 60 metros, teria atingido recifes na entrada norte da Baía de Benevente. Com avarias, buscou abrigo na enseada de Iriri, mas afundou na manhã seguinte.
Os 13 tripulantes foram retirados por um helicóptero que realizava viagens entre Vitória e Campos. Não foi um naufrágio de séculos passados: aconteceu em uma época em que a aviação já podia mudar o destino de uma tripulação em perigo.
O Paquetá permanece semi-inteiro entre cerca de 8 e 15 metros. A embarcação se rompeu atrás da cabine de comando. Na proa ainda existem escovém, âncora e guincho. A parte traseira repousa inclinada e conserva uma grande estrutura de carga.
Para conhecer o destino em terra, veja o guia de Iriri, em Anchieta.
Victory 8B: o naufrágio que não foi acidente
O Victory 8B precisa aparecer nesta lista com uma diferença clara: ele não afundou durante uma viagem comercial.
O cargueiro de bandeira grega foi abandonado depois de problemas financeiros e permaneceu retido no Espírito Santo. Após preparação ambiental e autorizações, foi afundado de forma controlada em 3 de julho de 2003.
O objetivo era criar um Recife Artificial Marinho para pesquisa, formação de habitat e turismo de mergulho. Com quase 90 metros de comprimento, tornou-se a maior estrutura submersa desse grupo.
O tempo, as correntes e tempestades alteraram sua posição e provocaram danos. Mesmo assim, ainda existem grandes trechos do casco, convés, porões de carga, superestrutura, leme e hélice.
Diferença histórica: Bellucia, Faria Lemos, Guanabara e Paquetá contam histórias de acidentes e salvamento. O Victory 8B conta a história de um navio preparado para ganhar uma nova função no fundo do mar.
Por que tantos navios afundaram na costa capixaba?
A concentração de registros tem relação com a antiga navegação de cabotagem. Antes de rodovias modernas, navios conectavam portos brasileiros e transportavam pessoas, correspondências, alimentos, café, açúcar e outros produtos.
A costa capixaba também possui ilhas, lajes e recifes próximos das rotas utilizadas por essas embarcações. Em períodos anteriores ao radar, ao GPS e às cartas digitais, cerração, escuridão, falhas mecânicas e erros de posição podiam aproximar um navio do perigo sem tempo suficiente para reação.
Os casos apresentados mostram diferentes combinações:
- Bellucia: falha mecânica seguida de choque contra rochas;
- Faria Lemos: visibilidade reduzida por cerração;
- Guanabara: baixa visibilidade perto de recifes costeiros;
- Paquetá: colisão e tentativa de buscar abrigo;
- Victory 8B: afundamento planejado, sem acidente.
Por isso, chamar o mar capixaba de “cemitério de navios” funciona como metáfora jornalística, mas não deve sugerir uma sequência de embarcações inteiras visíveis no fundo. Muitos registros correspondem a estruturas desmontadas, cobertas por organismos ou ainda pouco conhecidas.
É possível conhecer os naufrágios capixabas?
Alguns naufrágios são pontos de mergulho, mas não são atrações para visita improvisada. Profundidade, corrente, visibilidade, distância da costa, ferragens e estado estrutural variam de um local para outro.
O Bellucia e o Victory 8B são procurados principalmente por mergulhadores certificados. O Victory exige qualificação compatível com sua profundidade. Faria Lemos, Guanabara e Paquetá são mais rasos, mas continuam sujeitos a mar, embarcações, baixa visibilidade e estruturas cortantes.
Não tente chegar nadando, com snorkel ou em embarcação improvisada. A proximidade aparente da praia não elimina corrente, tráfego marítimo, recifes ou mudanças rápidas do tempo. Consulte uma operadora regular e informe corretamente sua certificação e experiência.
Para ampliar o roteiro em terra, consulte Guarapari além das praias. O artigo sobre naufrágios deve funcionar como aprofundamento histórico, enquanto o guia municipal mantém apenas uma apresentação breve do mergulho.
Por que não se pode retirar nada dos destroços?
Um naufrágio histórico não é um depósito de lembranças. A Marinha considera os remanescentes de embarcações sítios arqueológicos capazes de preservar informações sobre construção naval, comércio, alimentação, trabalho e vida a bordo.
A Lei nº 7.542/1986 determina que pesquisa, exploração e remoção de bens afundados em águas brasileiras dependem de controle e autorização da Autoridade Marítima. O Iphan também participa da proteção e da pesquisa arqueológica subaquática.
Quem encontra um objeto não deve mudar sua posição. A orientação oficial é comunicar a Autoridade Naval. Retirar uma peça destrói parte do contexto e pode configurar apropriação ilegal de patrimônio subaquático.
Regra simples: observe, fotografe sem tocar e deixe cada peça no lugar. O valor de um naufrágio está no conjunto, não em um objeto levado para casa.
Perguntas frequentes sobre naufrágios no Espírito Santo
Qual foi o naufrágio mais dramático do Espírito Santo?
Entre os casos bem documentados, o Bellucia possui a sequência mais tensa: problema na caldeira, rochas avistadas poucos minutos depois, choque, inundação e ruptura do casco em duas partes.
O Bellucia ainda está inteiro?
Não. Ele está partido em duas grandes seções, separadas por aproximadamente 150 metros. Permanecem hélice, leme, caldeiras, máquinas, guinchos, mastros e partes do casco.
Existem quantos naufrágios no Espírito Santo?
Uma base especializada reúne 107 ocorrências no estado e sete na Ilha da Trindade. Muitas possuem localização incerta ou poucos vestígios e não são pontos turísticos.
Qual naufrágio fica mais perto da praia?
O Guanabara está próximo da praia que recebeu seu nome, em Anchieta. Apesar da proximidade, o acesso independente não é recomendado.
O Victory 8B afundou em acidente?
Não. Ele foi preparado e afundado de forma controlada em 3 de julho de 2003 para funcionar como recife artificial marinho.
Houve sobreviventes no Faria Lemos?
Sim. Os passageiros e quase toda a tripulação conseguiram chegar a Guarapari. Uma morte entre os tripulantes foi registrada.
É possível ver naufrágios sem mergulhar?
Partes do Guanabara podem aparecer próximas à superfície conforme o mar e a maré. Nos demais casos, a história é conhecida por pesquisas, imagens subaquáticas e mergulhos organizados.
Posso retirar uma peça encontrada?
Não. Os bens submersos são protegidos, e qualquer achado deve permanecer no local e ser comunicado à Autoridade Naval.
O que o fundo do mar capixaba ainda conta
Os naufrágios no Espírito Santo não são apenas ferragens cobertas por corais. O Bellucia registra os minutos em que uma falha mecânica virou colisão. O Faria Lemos mostra o risco da navegação sob cerração. O Guanabara deixou seu nome em uma praia. O Paquetá foi palco de um resgate aéreo. O Victory 8B transformou abandono em recife artificial.
Juntos, esses navios revelam como a costa capixaba participou das rotas comerciais brasileiras e como o mar preserva histórias que desapareceram da paisagem terrestre.
Fontes consultadas
- Marinha do Brasil — naufrágios como patrimônio cultural subaquático
- Marinha do Brasil — proteção dos vestígios submersos
- Planalto — Lei nº 7.542/1986
- Iphan — patrimônio arqueológico
- Naufrágios do Brasil — levantamento do Espírito Santo
- Naufrágios do Brasil — Bellucia
- Naufrágios do Brasil — Faria Lemos
- Naufrágios do Brasil — Guanabara
- Naufrágios do Brasil — Paquetá
- Iema — naufrágio programado do Victory 8B
- Turismo Espírito Santo — naufrágios e mergulho em Guarapari
Informações revisadas em 17 de julho de 2026. O estado dos destroços e as condições de mergulho podem mudar com correntes, tempestades, corrosão e movimentação do fundo marinho.






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