Espírito Santo

O ciclone que assustou o ES em 2020 durou pouco — mas a chuva tinha outra causa

Retrospectiva explica a formação, força e afastamento da Tempestade Subtropical Kurumí e separa sua influência das chuvas que já atingiam o Espírito Santo em janeiro de 2020.

Por · 10 de agosto de 2026 · 8 minutos

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Em 24 de janeiro de 2020, a Tempestade Subtropical Kurumí já perdia força e se afastava da costa brasileira. O sistema havia sido nomeado no dia anterior pela Marinha do Brasil depois que seus ventos em alto-mar ultrapassaram o limite usado para classificar uma tempestade subtropical.

O episódio ficou associado a uma semana de chuva extrema no Sudeste, especialmente em Minas Gerais e no Espírito Santo. Mas há uma diferença importante: as primeiras chuvas devastadoras no sul capixaba começaram antes da formação de Kurumí. Depois, a tempestade atuou no Atlântico e reforçou a instabilidade associada à Zona de Convergência do Atlântico Sul.

Grande Vitória em dia de chuva, imagem ilustrativa de condições meteorológicas no Espírito Santo
Imagem ilustrativa da Grande Vitória em dia de chuva. A foto não é um registro da Tempestade Kurumí em 2020.
Entenda o que aconteceu

O que foi a Tempestade Subtropical Kurumí?

Kurumí foi um ciclone de natureza subtropical formado sobre o Atlântico Sul, longe da costa. O Centro de Hidrografia da Marinha registra oficialmente o sistema entre 23 e 24 de janeiro de 2020.

O fenômeno começou como uma área de baixa pressão. Com a intensificação dos ventos, foi classificado como depressão subtropical e, depois, como tempestade subtropical.

Na noite de 23 de janeiro, o INMET registrou ventos de 65 km/h associados ao sistema em alto-mar. Como o valor superou 63 km/h, a Marinha reclassificou o fenômeno e atribuiu o nome Kurumí.

Linha do tempo: das chuvas ao afastamento de Kurumí

Data O que aconteceu
17 e 18 de janeiro Chuvas muito intensas atingiram o Espírito Santo antes da formação de Kurumí. O INMET relacionou esse primeiro episódio a uma frente fria, calor e grande disponibilidade de umidade.
21 de janeiro A Marinha emitiu aviso antecipando a possível formação de um ciclone subtropical em alto-mar.
23 de janeiro Estabeleceu-se a Zona de Convergência do Atlântico Sul. A depressão subtropical intensificou-se e recebeu o nome Kurumí.
24 de janeiro Os ventos começaram a enfraquecer e o sistema voltou a ser classificado como depressão subtropical, já se deslocando para o sul.
25 e 26 de janeiro Os efeitos marítimos diminuíram e o sistema perdeu organização até desaparecer como ciclone.

Kurumí causou as enchentes no Espírito Santo?

Não é correto atribuir todo o episódio de chuva de janeiro de 2020 a Kurumí. O INMET informa que as primeiras chuvas mais intensas, nos dias 17 e 18, ocorreram antes de a tempestade se formar e foram associadas à passagem de uma frente fria combinada com calor e umidade.

Nessa fase inicial, o sul do Espírito Santo foi especialmente atingido. A estação do INMET em Alfredo Chaves registrou 210,2 mm de chuva no dia 18 de janeiro.

Nos dias seguintes, a circulação atmosférica passou a favorecer uma grande faixa de convergência de umidade. Em 23 de janeiro, formou-se a Zona de Convergência do Atlântico Sul, a ZCAS, sistema típico do verão capaz de manter grandes acumulados de chuva por vários dias.

Foi nesse ambiente que Kurumí se organizou sobre o oceano. Segundo o INMET, a atuação da tempestade no Atlântico Sul reforçou as chuvas associadas à ZCAS. Portanto, o ciclone participou do cenário meteorológico posterior, mas não explica sozinho todo o desastre que já estava em andamento.

Qual foi a força da Tempestade Kurumí?

Na classificação feita em 23 de janeiro, foram observados ventos de 65 km/h em alto-mar. Em um balanço posterior, a Diretoria de Hidrografia e Navegação informou ventos de até 74 km/h e ondas que chegaram a 5,4 metros em áreas marítimas associadas ao sistema.

A Marinha informou que as condições de vento forte e mar alterado atingiram uma extensa faixa oceânica entre o Sul e o Nordeste do país. O principal risco direto da tempestade estava sobre o mar e para atividades marítimas.

Kurumí não foi um furacão. Sua estrutura e classificação meteorológica eram diferentes das de um ciclone tropical intenso.

O vídeo acima é um registro meteorológico publicado em 23 de janeiro de 2020, quando o sistema ainda estava sendo acompanhado e sua trajetória era projetada sobre o Atlântico.

Por que surgiu a ideia de “adeus, ciclone”?

Em 24 de janeiro, poucas horas depois de receber o nome Kurumí, o sistema já apresentava enfraquecimento. O INMET registrou que os ventos diminuíram e a tempestade voltou à categoria de depressão subtropical, com o centro localizado centenas de quilômetros ao sul de Arraial do Cabo.

A Marinha relata que o ciclone continuou se deslocando para o sul. Os efeitos sobre o mar permaneceram até o dia 25 e o sistema desvaneceu no dia 26, já muito distante da costa.

Foi esse rápido afastamento que justificou, naquele momento, a mensagem de que o ciclone estava deixando de representar a principal preocupação meteorológica direta. A chuva continental, porém, continuava exigindo atenção por causa da ZCAS.

O que significa uma tempestade ser subtropical?

Um ciclone subtropical possui características intermediárias entre sistemas tropicais e extratropicais. A classificação não depende apenas da velocidade do vento: meteorologistas também analisam estrutura térmica, organização da circulação e posição dos ventos mais fortes.

No caso de Kurumí, a Marinha acompanhou a evolução desde a baixa pressão até a tempestade subtropical e depois o enfraquecimento.

Para entender a diferença entre esses fenômenos, veja também a diferença entre tornado, ciclone e furacão.

Como ciclones são monitorados atualmente no Brasil?

O Serviço Meteorológico Marinho, ligado ao Centro de Hidrografia da Marinha, é o órgão responsável pelo acompanhamento de ciclones subtropicais e tropicais na área marítima de responsabilidade brasileira.

O sistema de monitoramento inclui modelagem numérica, análise da estrutura do ciclone, avisos especiais de mau tempo, cartas sinóticas, trajetória estimada, velocidade do vento e altura das ondas.

A página oficial de monitoramento mantém relatórios individuais dos ciclones registrados desde 2011. Kurumí continua listado oficialmente como sistema ocorrido entre 23 e 24 de janeiro de 2020.

O que a retrospectiva de Kurumí ensina?

O principal aprendizado é não usar a palavra “ciclone” como explicação automática para qualquer temporal. No Espírito Santo, o episódio de janeiro de 2020 envolveu diferentes sistemas atmosféricos em sequência.

As chuvas mais intensas do dia 17 e 18 começaram antes de Kurumí. Depois, a formação da ZCAS manteve a convergência de umidade, enquanto o ciclone subtropical atuava sobre o Atlântico e reforçava a instabilidade.

Também é importante separar risco marítimo de chuva continental. Kurumí gerou ventos fortes e ondas elevadas em alto-mar, enquanto a situação de chuva sobre o continente dependia de uma configuração atmosférica mais ampla.

Perguntas frequentes

Quando ocorreu a Tempestade Kurumí?

A Marinha registra Kurumí como tempestade subtropical entre 23 e 24 de janeiro de 2020. O sistema perdeu força nos dias seguintes.

Kurumí atingiu diretamente o Espírito Santo?

O centro da tempestade permaneceu em alto-mar e se afastou para o sul. O sistema influenciou condições meteorológicas e marítimas, mas não fez uma passagem direta pelo território capixaba.

Foi Kurumí que causou toda a chuva no Espírito Santo?

Não. O INMET informa que as primeiras chuvas severas ocorreram antes da formação do ciclone. Posteriormente, Kurumí reforçou as chuvas associadas à Zona de Convergência do Atlântico Sul.

Qual foi a velocidade dos ventos?

Na classificação como tempestade subtropical, foram observados ventos de 65 km/h. Em balanço posterior, a Marinha informou ventos de até 74 km/h em alto-mar.

Kurumí foi um furacão?

Não. Kurumí foi classificada oficialmente como tempestade subtropical.

Por que recebeu o nome Kurumí?

Segundo a Marinha do Brasil, Kurumí é uma expressão de origem tupi-guarani com o significado de “menino”.

Este artigo é um alerta meteorológico atual?

Não. Este conteúdo explica um evento ocorrido em janeiro de 2020. Para alertas atuais, consulte os canais oficiais de meteorologia e Defesa Civil.

Fontes consultadas: Diretoria de Hidrografia e Navegação — Tempestade Subtropical Kurumí, Centro de Hidrografia da Marinha — monitoramento de ciclones subtropicais e tropicais, INMET — formação da Tempestade Subtropical Kurumí, INMET — chuvas em Minas Gerais e Espírito Santo em janeiro de 2020 e Defesa Civil do Espírito Santo — Alerta ES. Conteúdo histórico restaurado e revisado em agosto de 2026.

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