Um estudo geológico trouxe novas informações sobre o tsunami do Japão de 2011, um dos desastres naturais mais graves da história recente. Pesquisadores identificaram uma sequência de sedimentos ricos em argila que ajudou a concentrar a ruptura de uma falha tectônica próxima ao fundo do oceano.

Essa estrutura fraca teria favorecido um deslizamento excepcionalmente grande na parte mais rasa da Fossa do Japão. O movimento deslocou o leito marinho e contribuiu diretamente para a formação das ondas que atingiram o nordeste do país.

O que o estudo descobriu

  • A falha se desenvolveu junto a uma camada de argila pelágica muito fraca;
  • o contraste entre sedimentos fracos e rochas mais resistentes concentrou a ruptura;
  • o deslocamento na parte rasa da falha chegou a aproximadamente 50 a 70 metros;
  • esse movimento extremo do fundo do mar ajudou a gerar o tsunami devastador.

Tsunami do Japão de 2011 foi provocado por megaterremoto

Em 11 de março de 2011, um terremoto de magnitude 9,1 atingiu a região de Tohoku, no nordeste do Japão. O epicentro ficou no Oceano Pacífico, próximo à Fossa do Japão, onde uma placa tectônica mergulha sob outra.

O tremor produziu um tsunami que chegou à costa poucos minutos depois. Em algumas áreas, as ondas alcançaram dezenas de metros de altura, ultrapassaram barreiras de proteção e avançaram por quilômetros sobre o continente.

Mais de 18 mil pessoas morreram ou desapareceram. O desastre também destruiu comunidades, afetou portos e provocou o acidente nuclear na usina de Fukushima Daiichi.

A dimensão do tsunami surpreendeu até mesmo um país reconhecido por seus sistemas de preparação para terremotos. Desde então, cientistas tentam entender por que a ruptura avançou tanto em direção à superfície.

Camada de argila funcionou como uma zona de fraqueza

O trabalho, publicado na revista científica Science, analisou amostras e registros geofísicos coletados durante a Expedição 405 do Programa Internacional de Descoberta dos Oceanos.

Os pesquisadores encontraram uma sequência com cerca de 30 metros de espessura formada por argila pelágica. Esse material é composto por partículas microscópicas depositadas lentamente no fundo do oceano ao longo de milhões de anos.

No entanto, não foi toda essa camada que se transformou em uma grande falha. Segundo o estudo, a ruptura se concentrou em uma faixa muito mais estreita, localizada no topo ou na base da argila.

Como os materiais ao redor apresentavam propriedades físicas diferentes, o contato se tornou um ponto de menor resistência. Assim, a falha encontrou um caminho favorável para avançar até próximo do fundo do mar.

Em termos simples

A argila não criou o terremoto sozinha. Ela formou uma região fraca que facilitou o deslizamento da falha, permitindo que a ruptura chegasse mais perto do fundo do oceano e movimentasse uma quantidade enorme de água.

Por que um terremoto raso pode gerar um tsunami maior?

Grandes terremotos de subducção normalmente começam a dezenas de quilômetros de profundidade. Em muitos casos, parte da energia se dissipa antes que a ruptura alcance as áreas mais próximas da fossa oceânica.

Em 2011, porém, a falha avançou pela parte rasa do limite entre as placas. O estudo estima um deslizamento máximo entre 50 e 70 metros, uma distância incomum para terremotos observados com instrumentos modernos.

Quando uma área extensa do fundo marinho sobe, desce ou se desloca rapidamente, ela empurra a coluna de água acima. Essa perturbação se espalha pelo oceano em forma de ondas de tsunami.

A altura das ondas na costa também depende da profundidade do oceano, do formato do litoral e da topografia. Por isso, locais relativamente próximos podem registrar impactos muito diferentes.

Perfuração bateu recorde em águas profundas

A expedição utilizou o navio científico Chikyu, operado pela Agência Japonesa de Ciência e Tecnologia da Terra e do Mar, a Jamstec.

As equipes perfuraram em uma região localizada sob uma coluna d’água próxima de 7 mil metros. Durante o trabalho, o sistema atingiu o recorde de 7.906 metros de comprimento total de tubos entre o navio e o ponto de perfuração.

Portanto, a medida não representa a profundidade perfurada dentro das rochas. A maior parte desses quase 8 quilômetros correspondia à distância entre a embarcação e o fundo do oceano.

As amostras permitiram comparar os materiais da zona que sofreu o grande deslocamento com os sedimentos da placa do Pacífico antes de serem levados para dentro da área de subducção.

Descoberta pode melhorar os mapas de risco

Os cientistas acreditam que outras zonas de subducção podem apresentar combinações semelhantes de argilas fracas e rochas mais resistentes.

Localizar essas estruturas pode ajudar a identificar áreas com maior potencial para rupturas rasas e grandes deslocamentos do fundo marinho. Essa informação pode ser incorporada a modelos de tsunami, planos de evacuação e normas de construção.

O estudo também indica que a Fossa do Japão pode ser mais vulnerável a esse tipo de deslizamento do que margens tectônicas sem camadas fracas equivalentes.

A descoberta não prevê a data de terremotos

O estudo pode melhorar a avaliação de perigo, mas não permite informar exatamente quando ou onde ocorrerá o próximo megaterremoto. A previsão de datas específicas ainda não é possível.

O que é uma zona de subducção?

Uma zona de subducção surge quando duas placas tectônicas se encontram e uma delas mergulha sob a outra. O movimento acontece lentamente, mas partes do contato podem permanecer travadas durante décadas ou séculos.

Nesse período, a tensão se acumula. Quando a resistência das rochas é superada, ocorre uma ruptura rápida, liberando energia na forma de terremoto.

As maiores magnitudes já registradas no planeta estão associadas a esse tipo de limite tectônico. Japão, Chile, Indonésia e partes da costa oeste das Américas estão próximos de importantes zonas de subducção.

Pesquisa reforça importância da preparação

Mesmo com tecnologia avançada, terremotos e tsunamis continuam representando desafios para cidades costeiras. Por isso, sistemas de alerta precisam funcionar em conjunto com rotas de fuga, sinalização e treinamento da população.

Ao sentir um terremoto forte ou prolongado em uma região costeira, a recomendação internacional é buscar imediatamente áreas elevadas, sem esperar apenas por um aviso oficial.

A nova pesquisa não altera o que aconteceu no tsunami do Japão de 2011, mas ajuda a explicar como uma estrutura geológica aparentemente discreta contribuiu para um deslocamento tão extremo.

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Fontes consultadas